O verde das pastagens refletia o sol e doía nos olhos de tão lindo. As montanhas aprisionavam as nuances e intensidades da beleza dos pés e dos frutos do café, espalhados em suas encostas. O “arrasta-pé” corria solto, levantando uma nuvenzinha do gramado. As cores dançavam vibrantes. Quase tão vibrantes quanto os olhos orgulhosos e amorosos da mãe da noiva que percorriam o mar de rostos sorridentes. O terreiro da fazenda estava lotado. De gentes e de balões e de bandeirinhas e de serviçais oferecendo inacabáveis “comes e bebes”.
Eu estava sentada no último pau da porteira. Meus pés doíam por dentro da bota de couro curtido. O suor escorria pelas costas e pela frente, molhando a camisa xadrez. As costuras da calça jeans cortavam, sem piedade, as carnes dos quadris e coxas. Era ficar quietinha e quietinha pra não cair na tentação de tirar a roupa e horrorizar a TFM rural. Deus me livre! Era casamento da minha parceira!
E fiquei. Só quietinha e observando e pensando: minha amiga, parceira de mil e uma aprontações, estava definitivamente entrando (ou voltando) para um tipo de vida que eu não entendia. E entendia ainda menos como alguém se formava em biblioteconomia e optava por abandonar tudo e ser esposa de fazendeiro. Eu achava que entendia da vida e entendia das escolhas e entendia de amar.
E continuei ali, sentindo a dorzinha fina dos pés virar tremor quando duas mãos me pegaram por trás. Eram mãos grandes. Grande era também o corpo no qual as mãos me encostaram. Uma reação esquisita nas minhas entranhas foi imediatamente transformada em raiva. Me virei pura cascavel, disposta a chocalhar a audácia do dono das mãos – com certeza um matuto arrogante que estava me confundindo com alguma matuta das redondezas.
Ainda hoje um calor me sobe ao rosto ao me lembrar do que veio depois. Calor de vergonha e de coisas mais. Todo meu intrépido preconceito ficou paralisado nos olhos verdes. Foram daqueles olhos verdes o ponto de partida de uma longa e bela e vicinal história. E comecei a aprender de vida e de escolhas e de amar.
Eu estava sentada no último pau da porteira. Meus pés doíam por dentro da bota de couro curtido. O suor escorria pelas costas e pela frente, molhando a camisa xadrez. As costuras da calça jeans cortavam, sem piedade, as carnes dos quadris e coxas. Era ficar quietinha e quietinha pra não cair na tentação de tirar a roupa e horrorizar a TFM rural. Deus me livre! Era casamento da minha parceira!
E fiquei. Só quietinha e observando e pensando: minha amiga, parceira de mil e uma aprontações, estava definitivamente entrando (ou voltando) para um tipo de vida que eu não entendia. E entendia ainda menos como alguém se formava em biblioteconomia e optava por abandonar tudo e ser esposa de fazendeiro. Eu achava que entendia da vida e entendia das escolhas e entendia de amar.
E continuei ali, sentindo a dorzinha fina dos pés virar tremor quando duas mãos me pegaram por trás. Eram mãos grandes. Grande era também o corpo no qual as mãos me encostaram. Uma reação esquisita nas minhas entranhas foi imediatamente transformada em raiva. Me virei pura cascavel, disposta a chocalhar a audácia do dono das mãos – com certeza um matuto arrogante que estava me confundindo com alguma matuta das redondezas.
Ainda hoje um calor me sobe ao rosto ao me lembrar do que veio depois. Calor de vergonha e de coisas mais. Todo meu intrépido preconceito ficou paralisado nos olhos verdes. Foram daqueles olhos verdes o ponto de partida de uma longa e bela e vicinal história. E comecei a aprender de vida e de escolhas e de amar.
Oi Euza, queridinha.
ResponderExcluirSou eu, Marisinha, aqui na função de digitadora do chefinho Jens. O amadinho recém chegou da sessão com "a fisio gostosona" - a expressão é dele -, e se declarou cansado e, despótico, ordenou que eu digitasse suas impressões sobre o teu post. Então, ele pensa, fala e eu escrevo.
Abram-se, aspas:
(Em off)Porra, como a Euza escreve bem. Repara que uma única frase - "As cores dançavam vibrantes" - sugere, ou melhor, revela o ambiente festivo. Dá pra ouvir a música ver o pessoal ensolarado, dançando, sorrindo, a poeira levantando. Acho que ela faz um pacto com o demônio. Vendeu a alma por amor ao Verbo. Hummm, pára, para... Melhor deletar isso. Vou dizer a mesma coisa de modo diferente. Afinal, sou sou um bagual refinado (Humpft, até parece. Observação minha, Marisinha. Euzinha, esta divagação foi feita em off, não era pra publicar. Mas eu sou malvadinha e indiscreta, hihihi).
Agora é pra valer. Escreve aí:
Oi Euza.
Mais uma vez você encanta os amantes da boa leitura com o flagrante de um passado rural ao qual tuas palavras concedem cor, som e vivacidade. Parece que foi ontem e acho que eu estava lá, também admirando a grama verde banhada pelo sol acolhedor de Minas. Sob tua pena inspirada o pretérito transubstancia-se em presente e desperta inveja nos espíritos menos nobres, como é o meu caso. Queria estar ali naquela hora ao teu lado. Não tenho ojos verdes, mas os meus castanhos são tão letais quanto aqueles.
Beijo. Continue nos brindando com os recortes de um tempo que já passou e deixou um rastro de encantos.
Fechem-se, aspas.
***
De novo eu, Marisinha: puxa, que legal. O chefinho se puxou. Mas não exagerou. Assino embaixo, Euzinha. Vocé é 10.
Beijim carinhoso da amiga do sul.
Euza minha amiga.
ResponderExcluirInfelizmente não sou jornalista, assim sendo não tenho o dom da verborragia natural desses profissionais.
Então, (expressão paulistana de muito uso), recolho-me à insignificância dos meus rabiscos e, mesmo não tendo uma Marisinha para registrar meus pensametos, faço uso dos meus seis ou sete dedos inteligentes para digitar no teclado do meu NB e grafo a seguinte expressão: VAI ESCREVER BEM LÁ EM CASA SÔ!
de vida e dessas escolhas todo aprendizado é sempre começo, estrada por vir
ResponderExcluirbeijo
Olá Euza!!!
ResponderExcluirNão consigo ler o início do seu texto.. Tem alguns dagets por cima....
não há mulher que resista a um belo par de olhos verder... e a outros pares mais, né? rs. perfeita a volta, perfeito o texto! bjão, minha deuza!
ResponderExcluirE esta prosa que encanta. Essa forma linda de contar as coisas.
ResponderExcluirAs escolhas, muitas vezes estranhas... Como entendê-las? E a festa daqui, que trouxe tanta vida... Delícia. Beijo
.
ResponderExcluirD’Euza,
O aprendizado do amor, às vezes é tão sutil, que só percebemos que estamos entendendo dele quando, assustados, mergulhamos nuns olhos verdes, ou castanhos, ou negros, ou azuis e percebemos que se não nos entregarmos àquela vertigem, deixaremos de lado a possibilidade de uma longa e bela história... da mesma forma que se ignorássemos uma bela página escrita por você!
Beijos.
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Euza passei para lhe desejar um bom fim de semana. bjs
ResponderExcluirPôxa Euza...
ResponderExcluirOlhos verdes? É engraçado como nós rotulamos e imersos em pensamentos previsíveis já sentenciamos as pessoas e as circuntâncias antes mesmo de percebê-las né?
Seja como for é uma realidade latente... Adorei seu post. E ainda mais de voltar aqui.
Quanto ao que a "parceira" fez, largando tudo por um fazendeiro... que posso dizer?
A máxima clichê... "O coração tem razões que a própria razão desconhece..." rsss
Beijos (Des)conexos!
Lindo, minha cara: um romance rural onde os protagonistas tanto podem ser reais quanto fictícios! O bonito, acima de todas as tuas perfeitas sinestesias e alegorias sobre o casamento e as amizades, é justamente isso: o momento isolado no tempo, capturado por uma lente discreta, que tanto pode ser autobiográfico quanto uma bela estória inventada... Parabéns, mesmo! E adorei as palavras da dupla Marisinha/Jens: parecem uma pessoa só, tamanha a simbiose! Um abraço grande, moça talentosa!
ResponderExcluirOlha, esse "calor de vergonha" tem que subir logo às faces e te fazer corar, mas por outra razão: o longo interregno até um novo (e ótimo) texto)! Que demora é essa?! E apareça também! ABração!
ResponderExcluirOh, Doce Amiguinha Genial:
ResponderExcluirO seu texto é brilhante e fluído.
Lê-se com encanto e ternura tudo o que escreve do príncipio ao fim.
Fantástica e divinal.
Abraço amigo ao seu génio e a si linda amiga.
No maior respeito, estima e consideração.
Sempre a admirá-la imenso pelo seu valor de pérola preciosa da escrita.
Deslumbrado por tanto encanto só seu.
pena
Excelente, briosa amiga.
É fabulosa.
Euza, grato pela amizade e carinho, tenha um bom fim de semana, bjs
ResponderExcluirA feiticeira da noite sopra estrelas no céu
a lua torna-se mais cheia e resplandecente
a noiva da colina asperge um suave perfume
espalhando no ar o seu chamado envolvente.
Trata-se de um convite ao amor e a amizade,
vai ecoando pelos quatro cantos da cidade
rua do porto, engenho central, repúblicas....
nada passa despercebido ao clamor lançado.
Esse nosso amigo Jens não fica quieto nunca!... Fico feliz com tua nova casa e por ver esse pessoal todo por aqui.
ResponderExcluirQue prosa boa, sô!
Euza... Muito prazer! Sou o Daniel. Esse blog aqui não tem nada, mas nada mesmo se "sem-gracinha". Para te falar a verdade, andamos num mundo de gente convencional e num de morros, ventos e lobos uivantes... Ambos podem ser muito bons. Depende do dia e do estado de espírito...
ResponderExcluirQuanto ao texto eu estava nesse casamento... os comes e bebes eram dos melhores e vi quando as mãos fortes do cara de olhos verdes te puxou e vi que você quase ficou sem ar ao encará-lo. Que susto,hein moça!!!
E sabe por que eu estive neste casamento? Por que ao ler esse texto ( de tão bem escrito ) eu me imaginei lá.
Um bom final de semana!