01/02/2011

"Seu Chico"

Dizem que mineiro adora contar um “causo”. E é verdade. Teve um mineiro na minha vida que não só me ensinou a acompanhar histórias mirabolantes como a dar finais insuspeitos às mesmas histórias mil vezes contadas.

Meu avô era um mulato alto, magro e orgulhoso. Neto de escravos, traçou seu destino ao encantar-se pela filha mais velha do farmacêutico da cidade. Minha avó era uma "branca bem apanhada” – descendente de portugueses, tinha pele e olhos claros - mas a alma era miscigenada como a terra em que nascera. Era professora - e mais tarde seria diretora - da única escola que havia na cidade.

Naquele tempo, professora era autoridade. E marido de professora era o consorte da autoridade – portanto tão respeitado quanto ela. Viviam num casarão barroco de inúmeras janelas azuis. Janelas que se encheram todas com rostinhos que variavam do mulato ao branquinho. O rostinho mais velho era da minha mãe – que viria a ser também professora e se casaria com o recém-chegado farmacêutico, aquele que herdaria as portas estreitas e compridas da botica do lugar e viria a ser declaradamente um dos “comedores de criancinha”, herdeiro dos ideais do “cavaleiro da esperança” - este me ensinou a fazer História.

Meu avô não era letrado, mas tinha uma inteligência privilegiada, uma rara habilidade com as mãos e a alma plena das artes. Esta mistura de dons fez dele um dos homens mais ambicionados e invejados das redondezas – para desespero da minha avó que se roía de ciúmes do “seu Chico”! Mas ele era o parceiro ideal daquela descendente de cristãos novos que herdara a alma idealista e o coração conspirador dos inconfidentes da velha Vila Rica. Juntos revolucionaram a cidadezinha com suas peças teatrais - escritas por ela, montadas e dirigidas pelo Seu Chico - com seus saraus de poesia ao som de sax (às vezes clarineta) e as noitadas folclóricas onde a moçada cantava e dançava ao som da viola caipira.

Meu avô tinha muitas histórias. Ele tinha o dom de fazê-las e vivê-las e inventá-las e contá-las. Às vezes, tento me convencer de que há em mim uma veiazinha do “seu Chico” conduzindo meu sangue multirracial. Gosto de histórias, mas reconheço que saber contá-las não é pra muitos.

20 comentários:

  1. Taí. Descobri o nascedouro dessa verve fecunda, dessa descrição enxuta, dessa fraseologia harmoniosa:
    "Seu Chico".

    Excelente texto! Instigante...

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  2. Que linda história, parece romance... Ah, sim, os avós - os Chicos, os Pedros... Tantas histórias!

    Amiga, que maravilhoso que voltou. Saudades foram muitas. Beijo, Ila

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  3. Ah, Euza!
    vou percorrendo seu texto com os olhos que, agora, enxerga bem o pai que eu tive. Meu pai, velho pai, era contador de história. À noite, juntava a filharada em torno dele e tudo virava festa. Vejo-o um pouco Seu Chico, como seu avô.

    Um abraço

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  4. Euzamiga, se sabes contar as histórias ou não, não posso afirmar.
    Sei, apenas, que sabes escreve-las e muito bem.
    Essa qialidade é que me tornou seu fã e amigo.
    Espero que continues a exercê-la com assiduidade.

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  5. Moça,gostei do Seu Chico! Essas lembranças da infãncia são tão gostosas, né? Infelizmente não tive tanto contato com meus avós, que moravam no Ceará. Mas guardo um carinho imenso das férias que eu passava em Fortaleza com primos e primas e meus avós. Minha mãe dizia que na juventude meu Vô João tocava flauta, e eu mesma ainda o vi fazendo poesias.

    Adorei o texto! Me transportei pras noitadas ao som de viola caipira ;)

    Beijos

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  6. Está aí uma irrefutável prova de hereditariedade!
    Sabes como ninguém nos prender numa leitura interessante, rica em vivências, em pormenores, enriquecendo essas histórias e despertando as nossas emoções guardadas!

    Um beijão, Euza, com muito carinho!

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  7. Puxa, Euza, ainda não conhecia este canto mineiro e delicioso! Adorei, e sempre que o tempo deixar volto aqui pra ler tuas histórias.

    Beijo grande.

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  8. Que lindo Euza!
    Eu adorei o 'coração conspirador dos inconfidentes'. ito define muito do que sou, do que sinto, de minhas veias mineiras e dos veios de ouro em meu olhar. Seu Chico merece este post lindo, bem como sua avó e mais, queremos conhecer mais deste mineiro artista de alma de sol e mãos de pedra sabão!
    Um beijo!

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  9. Olá, Euza!

    Meu amado pai, mineiro dos bons, também adorava contar seus causos.
    Não tinha situação rotineira que não desse chnace para contar um causo.
    Saudade disto! Ninguém pode imaginar!
    Realmente, contar histórias é para poucos...
    Ainda bem que tem quem as escreve.
    Valeu, amiga!
    Muita paz! Beijosssssss

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  10. Oi Anjo Euza.
    Permita que eu discorde da tua auto-avaliação, na minha opinião por demais severa. Só os escribas de talento - aqueles que ousaram encarar o mel e o fel do reino das palavras -, são capazes de, com rápidas e concisas pinceladas verbais, de dar vida a um microcosmo e compor o retrato de uma época e seus personagens (no caso o contador de histórias e a professora). Você faz parte desta linhagem nobre de narradores, a irmandade dos que fizeram um pacto de sangue com Verbo, filho dileto de Minerva. Seja generosa, Euza, abra o baú e compartilhe tuas maravilhas.

    Beijo estropiado.

    (Quanto encontrares a Deusa Loba, diz que mandei um beijo recheado de saudade com gosto de chocolate).

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  11. Que alegria receber sua visita!
    Bjs.

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  12. Olá Euza!!!
    Fico muito lisongeado com sua visita e seu comentário em meu blog. Esse se texto é realmente delicioso...as memórias são ricas de um saudosismo que faz falta pra gente..aliás a palavra saudosismo esta caindo em desuso dada a falta de cuidado dos mais novos com a memória. Nesse frenezi da novidade. Novidade essa que acaba desbotando em segundos pois não há entusiamo em vivê-la.
    Abraços!!!

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  13. Fico lisonJeado!!!

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  14. Oh, Sublime e Extraordinária Amiga:
    "...Naquele tempo, professora era autoridade. E marido de professora era o consorte da autoridade – portanto tão respeitado quanto ela. Viviam num casarão barroco de inúmeras janelas azuis. Janelas que se encheram todas com rostinhos que variavam do mulato ao branquinho..."

    Que "coisa" mais doce e encantadora.
    Linda e perfeita.
    Parabéns pela eloquência verbal fantástica.
    Adorei e fiquei sem palavras. Boquiaberto de deslumbre.
    Os meus sinceros parabéns.
    É uma honra, a sua amizade.
    MUITO OBRIGADO pela sua ternura expressa no meu blogue que gostei muito.
    Estou maravilhado.
    Abraço amigo ao seu talento e pureza e beleza imensas.
    Com respeito.
    Sempre a admirá-la

    pena

    Excelente!
    Bem-Haja, notável amiga.
    VOCÊ é uma divinal escritora.
    Apareça sempre.

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  15. Deve ser hereditário... Você tem o dom de prender nossas atenção na leitura...

    Pois é, agora estamos em outro final de semana... e esse com certeza será muito bom também, apesar das companhias diferentes.

    Beijos!
    Tenha um final de semana maravilhoso!!!

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  16. \o/ Voltou!!

    Euza, tenho certeza que você herdou esse traço do seu avô!

    Entendo que para existir um bom contador de histórias, tem que existir o bom ouvinte! Eu faço parte deste segundo time! Adoro uma boa prosa!

    Saudades!!

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  17. Fico contente por ter regressado á blogosfera, Euza; são pessoas como você, que escrevem correctamente e com a alma que fazem falta neste meio.
    Não desapareça!
    Tenho a impressão, que a vida do "seu Chico" dava, por si só, uma grande história...

    Beijocas

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  18. Boa tarde.

    Adorei seu blog. Essa história dos seus avós é linda... Curiosa e cativante.
    Você herdou o dom de contá-las, e faz isso de forma gostosa de se ler.

    Estou lhe seguindo. Maria Auxiliadora (Amapola)

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  19. Boa tarde.
    Muito obrigada pela honra da sua visita.

    Um grande abraço.

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  20. Taí a receita desse bolo delicioso! Uma mistura digna de ser incluida entre os maiores mestres da nossa literatura! E você, d"Euza minha, herdou cada traço de cada um dos seus antepassados, trazendo para o nosso presente essa prosa tão bem desenhada, colorida e envernizada que nos encanta e nos leva a viagens de sonhos.

    Beijos, com carinho.

    Ah! Só agora pude ler na íntegra este seu "causo", devido ao probleminha de leitura do seu layout em meu pc. Agora é aguardar para poder ler o mais recente, já que o "probleminha" continua o mesmo.

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