16/04/2011

Dia da Pátria


Quando pequena, Sete de setembro era uma data ansiosamente esperada. Para a menina tímida, ser a baliza que seguia à frente da banda colegial era o estrelato. Os preparativos para o grande dia começavam logo após as férias do meio do ano. De mãos dadas com a tia, íamos escolher os tecidos da roupa, as meias-calças rendadas e as sapatilhas douradas. Depois, eram dias e dias acompanhando a tia a espalhar os dourados pelo vermelho da minúscula saia e pelo chapéu colorido, criado especialmente para a estrela.

Na noite que antecedia a festa, o sono era pequeno. Todos os minutos eram poucos para ficar imaginando a grande e colorida avenida aplaudindo-a. Na manhã do grande dia, nenhuma fome. Só uma alegria que vinha lá de dentro e enfeitava o rosto com um sorriso largo. Sorriso que permanecia o dia inteiro. Tomava o leite e engolia um biscoito porque era a forma de sair correndo para o colégio.

E o resto escorria como um rio de sonhos. A bailarina nascia esplendorosa. Na avenida Afonso Pena, era outra pessoa. Os movimentos eram ritmados, graciosos e seguros. Nada lembrava a moreninha que se sentava numa das últimas carteiras, na tentativa de se apagar dentro da sala de aula. Atrás dela, os tambores, cornetas, pratos, clarinetas. E o sorriso crescendo, crescendo e se espalhando pelas mãos, braços, pernas e movimentos. A Praça Sete de Setembro era o apogeu. Lá, o mar colorido de meninas e meninos parava. E eu fazia a muito esperada evolução. Como porta-bandeira de escola de samba do grupo especial, saudava o público fazendo aberturas e saltos elegantemente ensaiados.

Foi assim durante toda a infância. Adolesci. A bailarina do Sete de setembro morreu dentro de mim. O dia da Pátria já era festa dos militares. Os mesmos que desfizeram minha família e me separaram de meus irmãos. Eu já não acreditava mais naquela festa que agora era de um povo silencioso como gado marcado. Um povo obediente que sorria sem saber porquê e aplaudia, também sem saber porquê, as fardas verdes pesadas de medalhas e as lustrosas botas pretas. Para mim, Sete de Setembro e a Praça Sete passaram a ser sinônimo de protesto, prisões e saudade.

Muitos anos se passaram e o Sete de Setembro e a Praça Sete de Setembro perderam todo seu significado. Hoje, não são mais palco nem de protesto. Só de saudade.


Contribuição da Sandra Camurça:

Hoje o 7 de setembro é dia de protesto sim, é o dia do Grito dos Excluídos.
É lindo porque é um ato político mas apartidário, é lindo porque mistura todo mundo: movimento de mulheres, negros, GLBT, sem-terra, sem-teto, até o lado mais à esquerda da igreja católica se faz presente. Na última que eu fui, a coisa mais linda que eu vi foi umas drags protestando loucamente ao lado de freirinhas tão pudicas.

*****

Este texto faz parte da blogagem coletiva proposta por Rosélia

Infância



Ganhei do meu amigo querido Miguelito e do também querido Dilberto:





24 comentários:

  1. Belo texto, Euza, adoro ler recordações de infância. Mas em uma coisa discordo de vc: hj o 7 de set é dia de protesto sim, é o dia do Grito dos Excluídos. Eu já fui e é lindo!
    Beijo

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  2. é lindo porque é um ato político mas apartidário, é lindo porque mistura todo mundo: movimento de mulheres, negros, GLBT, sem-terra, sem-teto, até o lado mais à esquerda da igreja católica se faz presente. Na última que eu fui, a coisa mais linda que eu vi foi umas drags protestando loucamente ao lado de freirinhas tão pudicas, rsrs...adoro isso!

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  3. Ei Sandra!
    Vc tem razão, é ainda muito lindo o Sete de Setembro. Em BH o grito dos excluídos não é na Pça Sete de Setembro, palco das minhas lembranças. A concentração é na Pça da Assembléia e reúne várias pastorais sociais, movimentos populares, sociais e as dita minorias. Talvez eu tenha ficado presa demais às minhas próprias lembranças de ativista política! rs...
    Obrigada pelo toque. Vou fazer um adendo ao texto.

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  4. Olá, querida Euza

    "Então ficaram todas as crianças a sua INFÂNCIA a passar seus anéis azuis de orvalho".

    Seja muito bem vinda à nossa blogagem coletiva!!!
    É, não tem nada dos nossos velhos 7de setembro... vc disse muito bem...
    Emoção confundida com guerrilha... super diferente...
    Há 30 anos eu me emocionava ainda em cidades pequenas com o toque da banda...
    Casualmente, moro em frente a um Colégio e os ensaios começaram hoje... está lá a banda ensaindo...
    Coincidência???
    Talvez!!!
    Mas é porque o desfile cívico teve para nós duas muito significado... pelo que li no seu relato...
    Bela participação... quem pertenceu aos áureos tempos nos entenderá,certamente!!!

    Hoje, o meu desejo de paz e alegria é para vcs que:

    "...estendem o seu conceito
    de vida,
    e a veem na gota de orvalho".
    (Lice)

    Obrigada pela sua linda participação...

    Orvalho do Céu é uma “Chuva de Néctar da Verdade”... ou Palavras de Deus...

    É isso que lhe desejo nesse tempo que estamos entrando...
    Uma Abençoada Semana Santa e uma Páscoa extremamente feliz!!!
    Bjs de paz e achocolatados

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  5. Linda recordação.
    E perfeito arremate, ao convidar outra visão de Pátria a partilhar da postagem.

    Aqui, no Recife, o novo arcebispo participou do Grito, ano passado, mesmo sob os protestos da direita católica, em blogs sectários, que recomendo evitar. Fui ler esses tais e me assustei. Pensava que não existiam, mas existem. E são ultradireitistas, que se dizem cristãos rsrsrs

    Bem, eu apoio o novo arcebispo, mesmo sem ser religioso. rsrs

    Mas, a bailarina...hmmm eu era louco por elas, e não perdia um desfile, quando menino. Eram os meus primeiros alumbramentos...rsrsrs

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  6. Oxente, mudaste o visu? Gostei! O outro era muito cinza, nada a ver contigo :)
    E eu num post da EuzaLoba? Que honra!
    Menina, vc sabe cativar as pessoas!
    Beijos de Recife!

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  7. De longe a mais surpreendente e original blogada nesta coletiva.Comecei lembrando feliz dos desfiles,nunca fui baliza,mas ser porta bandeira também era importantíssimo,colocar a saia embaixo do colchão para ficar hiper pregueada...De repente me transporto para a dureza da ditadura que nos deixou amedrontadas,sem professores pq tinham determinados livros,sem alguns amigos,que trabalhavam em rádios e também liam o que para os militares era proibido.Fase do medo...Parabéns pela postagem!!!Já sou sua seguidora com alegria.
    GOSTARIA DE DIVULGAR AQUI A PROMOÇÃO DE ANIVERSÁRIO DO MEU BLOG,QUE FAZ DOIS ANOS HOJE.AOS AMIGOS QUE VISITAREM DE HOJE AO DIA 30/04 ESTAREI SORTEANDO UM LIVRO A ESCOLHA DO GANHADOR,DENTRO DA TEMÁTICA DO SEU BLOG

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  8. Euza,
    Nessa coletiva só você e minha irmã lembraram-se dos desfiles de 7 de setembro, muito diferentes do que são hoje.
    Os colégios onde estudei na infância disputavam até classificação.
    E tocar na banda? Outra coisa que nunca foi minha habilidade. Nem bailarina, nem instrumentista, apenas desfilava vestida de luvas, roupa impecável.
    Boa lembrança!
    Grata pela participação na coletiva.
    Bom final de semana!

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  9. OLÁ......eu tambem estou na blogagem coletiva fases da vida, infancia.....da uma espiadinha: http://anacristinap.blogspot.com/2011/04/blogagem-coletiva-fases-da-vida.html
    anacristina

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  10. Olá, Euza!

    Doces lembranças da infância e adolescência! Tão agradáveis a todos nós, pois todos vivemos também momentos de anonimato ou de glória, de uma maneira ou de outra, não é mesmo?!
    Sabe...eu tb fui baliza da fanfarra de minha escola. Adorava fazer aquelas evoluções com o corpo e com o bastão! Hoje, nem saberia segurá-lo mais...kkkkkkkk
    Das comemorações do dia da pátria, trago, como você, estas lembranças...Mas,tb, recordo os anos 64, 65 quando, ainda menina de 8 - 9 anos,vi meu pai sendo levado pelos "caras" do DOPS, de madrugada,para ser interrogado... Dias de medo, incertezas, necessidade...bom nem lembrar...Já passou. E tudo acabou bem, felizmente!
    Valeu, amiguinha!
    Agradeço pela visita lá no Memorias de Sampa.
    Muita paz! Beijosssssssss

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  11. desculpe-me pelo atraso,mas com essa fantástica coletiva e interação,com sua postagem tão contudente saio com meu aprendizado em dia!
    Obrigada pelo carinho da visita
    Boas energias,paz,saúde,sucesso!
    Mari

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  12. Olá Euza!!!

    Saudades sempre nos ensinam e nestas suas aprendo que não é fácil ver a vida com os olhos do otimísmo e da fé mas é preciso, ainda que as fardas e botas tentem nos pisar pois como disse o Chico "apesar de você amanhã há de ser outro dia". Se a praça perdeu o significado ele ficou profundamente marcado em seu Ser e isso se evidência no texto que você nos oferece!! Abraços!

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  13. Euza querida, agora estou mais tranquilo por ter conseguido abrir teu blog com a nova imagem e ler teu texto sempre muito gradável.
    Foram muitos os meus 7 de setembro cívicos. Na plena for da juventude, cheio de ilusões, fundador da fanfarra de nossa escola, eu marchei muitos quilometros de alegrias e felicidades.
    Hoje, apenas as recordações me fazem companhia, os 7 de setembro passam inoquos e indiferentes.

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  14. Identifiquei-me muito com a primeira parte de teu texto, Eusa. Não havia na face da terra algo mais emocionante do que os desfiles para o dia da pátria. Depois... povo obediente... que triste foi. Beijo

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  15. Você me fez lembrar uma coisa que aconteceu no dia da Pátria.
    Eu e meu irmão, fomos pro desfile de 7 de Setembro, com o nosso tio.
    No final, ganhamos badeirinhas do Brasil. Colocamos na janela do carro, e na primeira acelerada, ficamos nós dois, somente com o palito na mão.rs Nunca esqueceremos disso.
    A sua participação foi diferente, mas muito bacana.
    Beijos

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  16. Grande lembrança!! A minha irmã foi baliza e tem em casa uma fotinha dela. Ela sempre se gabou desse fato, afinal, as meninas eram escolhidas à dedo e precisavam ter qualidades que outras invejavam.
    Nunca participei de um desfile de 7 de Setembro, apenas assisti e sempre me emociono quando é tocado o hino da independência. Hoje em dia os valores mudaram e acho justo que as pessoas usem essa data para manifestarem seu lado cidadão. Apenas simbólico, porque de nada adianta.
    Muita gente sente saudade da época anterior a Ditadura - uma época envolta em nostalgia, cheia de sonhos e esperanças de realização. O povo era bastante inocente, por isso a repressão teve espaço. Mas enfim, de certa forma, o povo ainda continua inocente.
    Que bom que participou da blogagem!! Hoje quando li o seu comentário no "luz", minhas sinapses pulularam! (rs*)
    Beijus,

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  17. .

    Euza, querida!

    Agora sim, posso ler tranquilamente seus textos! Obrigado! Agradeço em meu nome e no de todos que tiveram alguma dificuldade para abrir ou para ler.

    E este texto, mostra tão bem como eram as comemorações do Dia da Pátria em nossa infância e no que a transformaram as fardas, as armas, as arbitrariedades impostas pela Ditadura!

    Os militares conseguiram matar, não apenas aquela linda e graciosa baliza que se realizava durante o desfile! Eles conseguiram matar os sentimentos patrióticos, o orgulho em celebrar datas e até mesmo o brilho que iluminava o sorriso de todas as crianças. Sorriso esse que, conforme diz com suas lindas palavras ia " crescendo, crescendo e se espalhando pelas mãos, braços, pernas e movimentos"...

    Hoje, as crianças têm outras coisas para comemorarem, e para se orgulharem. Quando as têm...

    E eu, criança outra vez (diante das tuas palavras), fico aqui babando diante de cada frase! Me transporto para o texto e viajo para outros tempos, me arrepio e me encho de sorrisos e de orgulho. Orgulho de você!

    Beijos, carinho.

    .

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  18. Xiii é mesmo, como tudo o que é belo é tao fragil às mãos da guerra e dos ditadores, à mão dos que destroiem os sonhos e as recordações, dos que separam familias e sentimentos...
    Nessas épocas morre muito mais do que gente, morrem sentimentos, morrem ilusões, morre a inocência e a alegria...
    Muito profundo seu texto.
    Beijo transatlântico,
    Rute

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  19. Interessantíssima, diferente, mas muito válida e como!!! Amei, esse texto, seu desabafo, sua passagem, suas acobacias pelos 7 de setembro. Vou ficarpor aqui, heim? Bjbjbj!!!

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  20. Mas odes à Pátria sempre terão um caráter fascista! Se olharmos bem, aqueles engravatados só mudam de nome e de farda: Getúlios, Mussolinis, Hitlers, Médices... Todos passando a tropa em revista, enquanto o sistema bélico é apresentado com orgulho... Difícil ser inocente diante de qualquer governo! Mas a tua alegria infantil em ser estrela por alguns momentos serviram perfeitamente para um belíssimo texto político, parabéns!

    Gosto dessa Euza, mas fico triste em imaginar algum horror vivido pela tua família... Tempos negros, ainda quero ouvir mais detalhes vividos pelas tuas lupinas retinas fatigadas...

    Euza, ando com um medo danado da novas ditaduras, as ditas "do bem"... Até gente que eu considero vem me falando em "vigília" e eu me quedo a temer a volta daqueles dedos inquisidores dos tempos de "Invasores de Corpos" Macarthistas... É dessas ditaduras às avessas que eu vinha falando e fui tão mal interpretado... Medo do medo é f...!

    Mas, no fim das contas, pra mim, você é quem continua f...! Beijão! E manda notícias dos presentes virtuais que tu andas a esnobar... Feliz feriado e feliz Páscoa, amada!

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  21. Oi Euza.
    Teu texto me fez relembrar os tempos de infância no Grupo Escolar José de Anchieta, em Ipanema, e da juventude incipiente no Ginásio Estadual Padre Reus, na Tristeza (poético nome de um bairro da zona sul de POA). Na época, o desfile da Semana da Pátria era sinônimo de festa verde-amarela. Piá, eu ainda não tinha consciência dos horrores da ditadura militar. Apenas gostava de marchar ao som do hino nacional. Tinha inveja dos caras da banda (nunca tive talento para tocar instrumento musical) Posso estar incorrendo em sacrilégio, mas, dane-se!, bons tempos aqueles.

    Beijo.

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  22. Feliz Páscoa querida!
    Tem um selinho especial pra vc lá no meu cantinho de rabiscos. Passa lá!

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  23. Euza... lindo post! Sério! Acho que esta data perdeu um pouco dos eu devido valor ao longo dos anos... As pessoas esqueceram a importância disso no atual estado de democracia em que vivemos... Mas por outro lado não é cativante lembrar-se de que em algum momento em nossas vidas já fez toda a diferença?????
    Nostálgico e amoroso o post.
    Amei.

    Beijos (Des)conexos!

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  24. Euza, e a saudade dói, dá até vontade de chorar! Mas homem não chora, fazer o quê? Meu beijo.

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