25/05/2011

Ainda temos futuro!

Andava distraída pelo calçadão quando aconteceu o encontrão. Imediatamente, caiu sobre mim uma raiva inacreditavelmente surda. Sou uma estabanada, admito. E admito também que ando na rua como se estivesse no mundo da lua. Com certeza fui culpada por espalhar todos aqueles jornais na calçada. Mas ele não precisava ser tão agressivo. Foi o que pensei naqueles segundos de estupefação enquanto o homem me xingava sem dó nem piedade.

Não sou daquele tipo estressadinha, mas também não gosto de levar desaforo para casa. Em situações como esta, não desço do salto, mas tendo a me aborrecer muito. Desta vez, o dia estava azul. Resolvi contar até dez e olhar o moço de verdade. Tentei ver o que havia por detrás da raiva nos olhos e daquele corpo que se agachava à minha frente. Certamente a vida dele não era fácil. Vender jornais é sempre um bico de quem está desempregado. E o desemprego explica muita coisa – inclusive a agressividade excessiva.

Abaixei-me para ajudá-lo, enquanto fazia o exercício de colocar-me no lugar dele. Certamente eu não saberia ser tão agressiva. Mas o verniz da civilização em mim é muito mais espesso que nele. Não importa a que custo, tive a oportunidade de ter uma educação mais completa e tenho mais acesso à cultura, de forma geral. Ignorando o olhar de quem queria me matar, assumi a minha responsabilidade no incidente e desculpei-me com ele. Surpreendentemente, ele meio que sorriu. E desculpou-se pelo mau gênio, explicando-me que estava atrasado e que jornais se vendem apenas até uma determinada hora. Com um sorriso, já beirando a descontração, despedi-me dele.

Fui embora prestando atenção nos meus passos e com uma música nova nos ouvidos. O pensamento vagou nas muitas vezes em que perdi a paciência e o humor em situações como aquela. E no quanto eu estava me desumanizando na relação com o outro – especialmente se o outro era um desconhecido e mal vestido. Parte da responsabilidade, certamente é desta vida corrida, e no meu caso, agravada pela minha incompetência na administração do tempo. Outra parte é do medo que tenho de ser assaltada, como já fui tantas vezes. Mas nada disso poderia justificar o endurecimento do meu olhar. E com aquele jeito de madalena arrependida admiti: nem me custou muito ser simpática. Foi preciso apenas exercitar a minha tolerância – e o exercício não me tirou nenhum pedaço, além de ter provocado uma mudança concreta em quem antes só queria me agredir.

E meu andar quase se transformou em passos de dança coreografada, de tanto que gostei da minha constatação. Não estraguei meu dia e o mais importante: descobri que se eu posso mudar o meu olhar e com isso mudar a atitude de quem comigo contracena no teatro da vida, podemos muito. Então, ainda temos futuro - eu e toda raça humana!

8 comentários:

  1. isso Euza amiga! Atitude! Eu sempre vi que poderia mudar as pessoas com o olhar, com meus gestos. Você também descobriu isso, como mostra neste texto lindo! Um beijo!

    ResponderExcluir
  2. Oi Euza, soberana do meu afeto.
    A partir da reação a um acidente banal, você percebe, e nos faz ver, que um outro mundo é possível. Esta percepção aguçada e humanista revela não apenas a escritora sensível e talentosa que você é - integrante da tribo das "antenas da raça" de Ezra Pound -, mas, sobretudo, mostra que solidariedade e respeito ao próximo fazem parte dos teus atos cotidianos.
    Tua crônica nos alerta que antes de se tornar coletiva, a mudança começa pela postura individual diante de questões comezinhas como um encontrão(aqui no RS diríamos "pechada") com um jornaleiro. A grande revolução do século 21 será comportamental.

    Beijo sonhador e futurista.

    ResponderExcluir
  3. Pois é isso mesmo, Euza, eu tenho tido essa reflexão, e ao mesmo tempo que busco a minha redenção com o outro, busco comigo mesma. Sou das mudanças, pelas mudanças, para as mudanças. Mas sem muito castigo para comigo, porque muitas vezes a mudança só se dá de fato, quando acontece nesses moldes: porque desejamos!

    Deixo beijo, querida!

    ResponderExcluir
  4. Olá! Adorei seu blog, muito criativo! Também tenho um blog e gostaria que vc desse uma olhada. O endereço é: http://www.criticaretro.blogspot.com/ Passe por lá! Lê ^_^

    ResponderExcluir
  5. Lobinha, esse foium verdadeio gesto de civilidade.
    Que bom que vc percebeu que ele não doeu nada e, assim, poderá ser ´praticado muitas outras vezes.
    Do alto da minha insignificância, aplaudo o ocorrido e te mando um beijo fraternal.

    ResponderExcluir
  6. Mandou bem Euza, assim é o escritor, cata aqui e ali pedacinhos de vida e transforma em arte "escrevinhadas"... Saudades de você querida. Fiquei feliz ao te ver no Solidão, quanto tempo né? Beijos amada, volte sempre.

    ResponderExcluir
  7. Colocar-se no lugar do outro, eis uma prática que estamos sempre esquecendo. Temos responsabilidade nisso mas essa vida também não ajuda muito né?
    Bom te ler aqui!
    Beijos

    ResponderExcluir
  8. Fantástico o seu relato!
    Penso como você! Tudo muitas vezes depende do nosso modo de conduzir as coisas... Muitas vezes ficamos surpreendidas com um gesto mais humano!
    Adorei conhecer o seu blog!
    Beijos

    ResponderExcluir